SUA ESCOLA PREPARA OS PROFESSORES PARA OS DESAFIOS DE HOJE OU PARA OS DE ONTEM?
- Daniela Devides

- há 6 dias
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A maioria dos gestores educacionais sabem que algo mudou. Eles percebem que os alunos de hoje não respondem mais às mesmas abordagens que funcionavam há cinco, dez anos. Sentem que os conflitos se tornaram mais complexos, que as famílias chegam com outras demandas e que a sala de aula exige algo que o diploma de licenciatura, não entregou. Ao mesmo tempo, as universidades continuam formando seus professores como se o tempo tivesse parado, ou melhor, como se preparar para o presente fosse apenas repetir o passado com mais afinco.
Essa desconexão é o tema que quero colocar hoje. A pergunta que precisa estar em cada instituição é simples: a formação continuada que o seu colégio oferece está preparando os professores para os desafios que já chegaram ou para aqueles que já ficaram para trás?
Durante décadas, formamos professores com um foco quase que exclusivamente técnico. Saber o conteúdo, dominar a didática, planejar a aula, aplicar a avaliação. Isso era suficiente, pois o mundo era outro. As crianças chegavam à escola com repertórios mais homogêneos, as famílias depositavam na instituição uma autoridade praticamente inquestionável e os problemas mais recorrentes em sala de aula giravam em torno da aprendizagem formal. O professor era o transmissor; o aluno, o receptor, e , dentro desse paradigma, a formação focada no “o quê” ensinar cumpria o seu papel.
Mas esse paradigma desmoronou, e não foi por acaso. A revolução digital, a fragilização dos vínculos familiares, o excesso de estímulos, a ansiedade que atravessa gerações cada vez mais jovens e o acesso precoce a informações sem mediação mudaram a natureza do trabalho docente de forma profunda e irreversível. Hoje, o professor chega à sala de aula e se depara com questões que a sua graduação jamais abordou, como por exemplo: como mediar um conflito entre alunos que se ofendem nas redes sociais durante a noite e chegam à escola carregando aquela dor? Como acolher uma criança que não regula as próprias emoções porque nunca ninguém a ensinou a nomeá-las? Como conversar com uma família que não reconhece mais a autoridade pedagógica da escola e chega na defensiva? Como cuidar da própria saúde mental em um ambiente onde o sofrimento psíquico dos alunos transborda todos os dias?
Não se trata mais apenas de ensinar matemática, português ou ciências. Trata-se de ensinar gente. E gente é complexa, imprevisível, emocional. Gente aprende melhor quando se sente segura, acolhida, compreendida e, da mesma forma, aprende mal quando está ansiosa, ameaçada ou desconectada. Isso não é teoria, é neurociência aplicada. Um aluno que não regula a própria emoção não consegue aprender e, da mesma forma, um professor que não sabe ajudar nessa regulação perde a sala de aula, independentemente do quanto domine o conteúdo.
É aqui que a formação continuada precisa se reinventar. Não estou falando de mais um curso técnico sobre metodologias ativas, mais uma palestra sobre BNCC, mais um treinamento superficial de uma tarde. Estou falando de um investimento real, sistemático e contínuo em competências relacionais e socioemocionais. Formar professores emocionalmente competentes, capazes de ler o que não está dito, de escutar antes de julgar, de acolher sem perder o limite, de se comunicar com clareza e empatia, de mediar conflitos com segurança, de se autorregular diante do estresse cotidiano da profissão.
Quando uma escola investe de verdade no desenvolvimento contínuo do seu time, algo extraordinário acontece. Não é exagero: a cultura escolar se transforma. Professores mais seguros produzem ambientes mais acolhedores, alunos mais acolhidos aprendem mais e se desenvolvem melhor e famílias mais bem recebidas confiam mais na instituição.
Quando olhamos para trás, não são os planos de aula que lembramos. São os professores que nos enxergaram, que nos acolheram, que nos ensinaram a confiar em nós mesmos. Uma escola que forma esse professor está plantando algo que nenhuma tecnologia, nenhum método, nenhuma reforma curricular serão capazes de substituir, ela está plantando humanidade e, é, justamente, isso que o presente e o futuro da educação precisam!
Daniela Devides — especialista em Educação Socioemocional e Psicologia Positiva, pós-graduada pela PUCRS, com especializações pelas Universidades de Yale e Pensilvânia, escritora, palestrante, mantenedora do Colégio Degrau de Araçatuba e autora do livro Da Reação à Conexão.




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