Formar é cuidar de quem ensina
- Daniela Devides

- 23 de jul.
- 3 min de leitura

Certa vez, ao concluir mais um módulo de formação continuada com minha equipe, fui tomada por uma inquietação que se recusava a passar despercebida. Enquanto caminhava pelos corredores do Colégio Degrau, observando o olhar dos professores que cruzavam comigo, comecei a compreender o que a pauta oficial da formação havia deixado de fora: a pessoa que habita cada educador.
A formação continuada sempre foi tratada como um instrumento de atualização técnica. Vamos suprir lacunas, apresentar novas ferramentas, alinhar discursos. E, de fato, tudo isso é importantíssimo em um mundo que se transforma em uma velocidade vertiginosa. No entanto, o que a Neurociência e a Psicologia Positiva vêm nos mostrando com crescente clareza é que o aprendizado significativo, tanto o dos alunos quanto o dos próprios professores, não acontece no vácuo relacional. Ele ocorre dentro de um sistema vivo, feito de pessoas que sentem, que se cansam, que se emocionam e que precisam, antes de qualquer coisa, sentir-se seguras para aprender e para ensinar.
Quando falamos em formação docente, é tentador reduzir a equação ao que é mensurável: quantos cursos foram feitos, quantas horas foram cumpridas, quantas novas estratégias foram incorporadas ao plano de aula. Mas a equação mais importante escapa a essas métricas. O que acontece com o professor que chega à formação exausto, emocionalmente sobrecarregado, sem ter tido um único momento de escuta genuína ao longo da semana? O que acontece com a sua capacidade de acolher o aluno que chega desregulado, se ele próprio não encontra regulação no ambiente em que trabalha?
Quando negligenciamos a dimensão relacional da formação continuada, não estamos apenas comprometendo o bem-estar do educador, estamos, indiretamente, comprometendo a qualidade do vínculo que ele será capaz de estabelecer com seus alunos. E, como defendo na metodologia da Conexão Emocional Acadêmica, o vínculo é o condutor por onde flui o conteúdo. Um professor que não se sente acolhido, valorizado e emocionalmente seguro terá imensa dificuldade de oferecer acolhimento e segurança à sua turma.
É por isso que acredito que nutrir relações dentro da equipe escolar deveria ser um objetivo explícito de todo programa de formação continuada. Não como um "momento de integração" superficial no início do semestre, mas como uma prática intencional e recorrente. Criar espaços onde os professores possam compartilhar suas dificuldades sem medo de julgamento, onde possam ser vistos em sua humanidade antes de serem avaliados em seu desempenho, onde o erro seja tratado como dado pedagógico e não como falha de caráter. Isso é formação. Isso é, também, cuidado.
Ao longo de mais de três décadas dedicadas à educação, observo que as escolas que realmente transformam vidas são aquelas que entendem que o professor não é um transmissor de conteúdo, mas um ser humano em relação. Para que ele possa desempenhar seu papel com excelência, precisa ser nutrido em sua integralidade, precisa de formação que olhe para sua prática, sim, mas também para seu coração, para suas relações e para o ambiente em que ele exerce sua profissão todos os dias.
Que possamos, como educadores e gestores, ampliar o nosso olhar sobre o que significa formar uma equipe. Que não meçamos o sucesso da formação apenas pelo conteúdo entregue, mas pela qualidade das relações que foram cultivadas ao longo do processo. Um professor que se sente visto, acolhido e pertencente é um professor capaz de enxergar o aluno que mais precisa ser visto e, é aí, nesse encontro genuíno entre dois seres humanos que aprendem juntos, que a educação acontece.
Daniela Devides — especialista em Educação Socioemocional e Psicologia Positiva, pós-graduada pela PUCRS, com especializações pelas Universidades de Yale e Pensilvânia, escritora, palestrante, mantenedora do Colégio Degrau de Araçatuba e autora do livro Da Reação à Conexão.




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