ANTES QUE OS CORREDORES SE ENCHAM
- Daniela Devides

- 30 de jul.
- 3 min de leitura

Há um momento, entre o silêncio das férias e o burburinho do retorno, que costuma passar despercebido. É aquele instante em que a escola ainda está vazia, as carteiras alinhadas, os corredores limpos, o quadro em branco e, no entanto, tudo já começou. O segundo semestre letivo, para quem lidera, não se inicia quando os alunos cruzam o portão na primeira segunda-feira de agosto, na verdade, ele começa muito antes.
Como gestora educacional, você já deve ter sentido esse peso, enquanto a equipe descansa e as famílias aproveitam o recesso, sua mente já está projetando o que vem pela frente. E não estou falando apenas do planejamento pedagógico. O que realmente define o tom do semestre que se inicia é algo mais sutil, mais profundo e, paradoxalmente, mais urgente: o clima escolar, a saúde emocional da equipe e a qualidade das relações que sustentam cada aprendizado.
O clima da sala de aula é um reflexo direto do clima da sala dos professores. Se a equipe chega ao retorno das férias desmotivada, sobrecarregada ou desconectada, não há planejamento pedagógico que dê conta de sustentar uma experiência educacional transformadora. O cansaço do líder se propaga, a ansiedade do coordenador se espalha, a falta de alinhamento da equipe se reflete em cada interação com os alunos. Por isso, a preparação para o segundo semestre precisa começar pelas pessoas e não pelos conteúdos.
E o que significa, na prática, preparar as pessoas? Significa, primeiro, reconhecer que o recesso de julho não apaga magicamente o desgaste acumulado do primeiro semestre. Os conflitos não resolvidos, as frustrações não ditas, os desafios que ficaram pendentes, tudo isso ainda está ali, latente, esperando para emergir assim que a rotina se restabelecer.
Portanto, é preciso cultivar intencionalmente aquilo que faz a escola prosperar: propósito compartilhado, confiança mútua, reconhecimento genuíno e um senso de pertencimento que atravessa gerações. Esses não são elementos decorativos da gestão escolar, na verdade eles são a infraestrutura emocional sobre a qual todo o resto se sustenta.
Há uma pergunta que todo gestor deveria se fazer nestes dias que antecedem o retorno: Como minha equipe está chegando para este semestre? Não é uma pergunta sobre produtividade. É uma pergunta sobre humanidade, sobre reconhecer que cada educador que cruza o portão da escola carrega consigo uma história, um cansaço, uma esperança.
Como educadores, sabemos que o que os alunos mais lembram, anos depois, não são as notas que tiraram ou os conteúdos que aprenderam. São os professores que os enxergaram, são os momentos em que se sentiram acolhidos, são as relações que os transformaram. E essas relações não acontecem por acaso, elas são fruto de um ambiente cuidadosamente cultivado, por uma equipe que, por sua vez, foi intencionalmente cuidada.
Que nestes dias de preparação silenciosa, antes que os corredores se encham novamente, você reserve um tempo para olhar para dentro da sua escola. Não para as planilhas, não para os cronogramas, não para os relatórios, mas para as pessoas, para o clima, para as conexões que precisam ser fortalecidas...
E quando o sinal tocar na primeira manhã de agosto, que ele encontre não apenas uma escola preparada pedagogicamente, mas uma comunidade educativa pronta para acolher, transformar e inspirar. Porque no fim das contas, educação é isso: uma história de conexão que se renova a cada semestre, a cada encontro, a cada recomeço.
Daniela Devides — especialista em Educação Socioemocional e Psicologia Positiva, pós-graduada pela PUCRS, com especializações pelas Universidades de Yale e Pensilvânia, escritora, palestrante, mantenedora do Colégio Degrau de Araçatuba e autora do livro Da Reação à Conexão.




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