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O Pai que Fica

  • Foto do escritor: Daniela Devides
    Daniela Devides
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Semanas como a do Dia dos Pais costumam nos convocar a uma espécie de reflexão silenciosa. Não a reflexão comercial de presentes e homenagens, mas algo mais profundo. Uma pergunta que muitos de nós, educadores e pais, carregamos sem dizer em voz alta: que tipo de presença tenho sido na vida dos meus filhos? 


Durante anos, a figura paterna foi associada a um lugar de distância. O pai provedor, o pai que chega ao fim do dia exausto, o pai cujo amor se media mais pelo sustento material do que pela qualidade do vínculo. A neurociência contemporânea, no entanto, tem nos mostrado algo profundamente transformador onde cérebro infantil se desenvolve melhor quando cresce em um ambiente de presença emocional estável e consistente. Não importa tanto a quantidade de horas, mas o que acontece dentro delas. Uma hora de atenção plena e conectada vale infinitamente mais do que uma tarde inteira de presença dispersa.


Quando o pai está emocionalmente disponível, quando responde com calma ao choro ou à frustração, quando nomeia as emoções que a criança ainda não consegue nomear sozinha, ele está literalmente ajudando a construir as conexões neurais que permitirão à criança, um dia, autorregular-se sozinha. 


É aqui que mora uma das ideias mais contraditórias da Disciplina Positiva, onde presença não é sinônimo de permissividade. Pais presentes não são pais que dizem sim o tempo todo. Pelo contrário. A criança se sente segura justamente quando encontra limites claros, colocados com firmeza e não com violência ou autoritarismo. O pai que diz "não" com olho no olho, que explica sem humilhar, que sustenta a decisão mesmo diante da birra, está oferecendo algo tão valioso quanto o colo.


O verdadeiro equilíbrio está entre a firmeza e a gentileza ao mesmo tempo. Nem só firmeza, que vira rigidez e afasta. Nem só gentileza, que vira permissividade e desorienta. O pai que consegue sustentar essa tensão criativa está construindo um apego seguro com seus filhos. E é justamente do apego seguro que brota a autonomia verdadeira. Pode soar paradoxal, mas a criança que se sente segura na presença do pai é a que terá coragem de explorar o mundo, de errar, de voltar e tentar de novo.


Na correria do dia a dia, muitos pais se cobram por não oferecerem experiências extraordinárias. Viagens, presentes caros, fins de semana repletos de atividades. Mas o que a pesquisa em desenvolvimento infantil nos mostra é que as crianças guardam memórias do ordinário: do pai que fez café da manhã no sábado, que ouviu a mesma história sem reclamar, que segurou a mão no caminho da escola, que apareceu na apresentação mesmo tendo reunião no trabalho. 


O pai que fica, não é o pai perfeito. Felizmente. Perfeição não cria vínculo, cria distância. A criança não precisa de um herói inalcançável, ela precisa de um adulto que erra, que volta, que tenta de novo. Precisa de alguém que, mesmo sem todas as respostas, permanece ao lado. É essa permanência, essa escolha renovada de estar junto, que transforma a figura paterna em um farol. Faróis não gritam, não se impõem. Eles simplesmente estão lá, firmes, iluminando o caminho para que o outro navegue com confiança.


Nesse Dia dos Pais, convido cada leitor a olhar para o seu próprio jeito de estar na vida das crianças ao seu redor. Não para se cobrar mais, mas para se lembrar do que realmente importa. A presença que fica, que sustenta, que abraça e que também diz não quando precisa, é a mesma presença que forma adultos emocionalmente saudáveis, capazes de amar e de se relacionar com liberdade e responsabilidade.


Daniela Devides — especialista em Educação Socioemocional e Psicologia Positiva, pós-graduada pela PUCRS, com especializações pelas Universidades de Yale e Pensilvânia, escritora, palestrante, mantenedora do Colégio Degrau de Araçatuba e autora do livro Da Reação à Conexão.


 
 
 

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