QUEM É FELIZ NUNCA FICA TRISTE?
- Daniela Devides

- 17 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
O mito do sorriso constante
Começo esse texto na intenção de quebrar um paradigma que, talvez, esteja impedindo muitos de vocês de se permitirem viver uma vida mais plena e autêntica. A pergunta é: "Quem é feliz nunca fica triste?".
Deixem-me ser enfática ao responder esse questionamento desde o início: Absolutamente não! Essa é uma das maiores mentiras sobre a felicidade, um mito que nos aprisiona na busca incessante por um estado de euforia contínua e nos faz sentir inadequados sempre que a tristeza, a raiva ou o medo batem à porta. A ideia de que pessoas felizes vivem sorrindo o tempo todo não apenas irreal, como também prejudicial. Ela nos ensina a reprimir emoções que fazem parte da experiência humana, impedindo-nos de lidar com elas de forma saudável.
Na Psicologia Positiva, a Ciência da Felicidade, preferimos falar em "bem-estar subjetivo". Este conceito é muito mais abrangente e realista. Ele não se resume à ausência de sentimentos negativos, mas sim à presença de emoções positivas, engajamento com a vida, propósito, relacionamentos significativos e sensação de realização, aliada à capacidade de lidar com os desafios e as emoções difíceis. Em outras palavras, não é sobre nunca sentir tristeza, mas sobre como você a vivência e o que faz com ela.
A vida é um emaranhado complexo de experiências. Há momentos de alegria extrema, sim, mas também há perdas, desilusões, frustrações e medos. Essas emoções que rotulamos como "negativas" não são inimigas da felicidade; elas são mensageiras. A tristeza, por exemplo, muitas vezes sinaliza uma perda e nos permite processar o luto, nos conectar com nossa vulnerabilidade e com os outros. A raiva pode indicar que um limite foi ultrapassado ou que algo precisa ser mudado, impulsionando-nos à ação. O medo nos alerta para perigos e nos ajuda a proteger o que é importante.
Suprimir essas emoções é como tentar tapar o sol com a peneira, pois elas não desaparecem. Elas se alojam em nosso interior, podendo emergir de formas menos saudáveis, como ansiedade crônica, estresse, ou até mesmo doenças psicossomáticas. Não se trata de controlar se sentimos algo, mas como lidamos com o que sentimos.
Uma vida plena e feliz não é uma vida sem nuvens, mas uma vida onde se aprende a dançar na chuva e a apreciar o arco-íris que surge depois. É abraçar de forma completa a experiência humana. É entender que a resiliência e a sabedoria muitas vezes nascem da superação de momentos difíceis. Ao permitir-nos sentir o todas as emoções, nos tornamos mais autênticos, mais empáticos e mais aptos a construir relacionamentos profundos e significativos.
Liberte-se da tirania da felicidade constante. Permita-se sentir. Permita-se chorar quando for preciso, permita-se ficar com raiva por uma injustiça, permita-se sentir medo diante do desconhecido. Ao fazer isso, você não se afastará da felicidade; na verdade, abrirá espaço para uma felicidade verdadeira, mais profunda, mais real e muito mais duradoura; uma felicidade que não nega a vida em sua complexidade, mas a celebra em sua totalidade!
Ser feliz não é não ter problemas, mas é ter a força e as ferramentas emocionais para enfrentá-los. É na capacidade de viver e integrar todas as suas emoções que reside a verdadeira plenitude e, sim, a verdadeira felicidade que inspira.
Daniela Devides, especialista em Educação Socioemocional
e Psicologia Positiva, pós-graduada pela PUCRS, escritora,
palestrante, mantenedora do Colégio Degrau de Araçatuba.




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