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DITADURA DA FELICIDADE

  • Foto do escritor: Daniela Devides
    Daniela Devides
  • 12 de jan.
  • 3 min de leitura

O Perigo Oculto da Positividade


A pressão para “começar o ano bem”, para ser a nossa “melhor versão”, para concretizar todas as promessas da virada, pode ser avassaladora e, paradoxalmente, nos afastar de uma saúde mental verdadeira.


O primeiro mês do ano, com a sua simbologia de renovação e o movimento do Janeiro Branco, que tão nos convida à reflexão sobre a saúde mental, pode acabar sendo um terreno fértil para o que chamamos de Positividade Tóxica. O discurso motivacional, que inunda nossas redes sociais e conversas, muitas vezes nos impõe uma espécie de ditadura da felicidade. “Pense positivo!”, “Vibre alto!”, “Apenas boas energias!”, “Seja grato por tudo!”. Embora a gratidão e o otimismo sejam pilares importantes para a felicidade, quando transformados em imperativos, eles se tornam uma máscara que encobre dores e vulnerabilidades.


A Positividade Tóxica é a supergeneralização e supervalorização do estado de otimismo, excluindo quaisquer emoções humanas que são consideradas “negativas”. Ela nega a legitimidade de sentimentos como tristeza, raiva, frustração ou medo, rotulando-os como obstáculos a serem superados o mais rápido possível, ou pior, como falhas pessoais. Essa pressão para estar sempre “bem” e “feliz” impede que experimentemos o espectro completo de nossas emoções, que são, por essência, guias valiosos da nossa experiência humana.


Estudos em psicologia e neurociência têm nos mostrado repetidamente que a tentativa de suprimir emoções não as faz desaparecer; ao contrário, as intensifica. O córtex pré-frontal, responsável pela regulação emocional, precisa processar essas sensações. Quando negamos um sentimento, ele não se dissolve. Ele se instala, muitas vezes, somatizando-se no corpo ou ressurgindo com ainda mais força. A validação das emoções, mesmo as mais desconfortáveis, é um passo fundamental para o bem-estar. É como dar nome ao que sentimos, para então podermos compreendê-lo e, com o tempo, integrá-lo ou transformá-lo.


Portanto, em vez de exigir de nós mesmos uma felicidade inabalável, a proposta para um Janeiro Branco verdadeiramente saudável é a da autocompaixão e da vulnerabilidade. Ser autocompassivo significa tratar a si mesmo com a mesma gentileza, carinho e compreensão que você ofereceria a um amigo querido que está sofrendo. Não é pena, nem autoconveniência, mas sim o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada, a verdadeira permissão para sermos humanos, com todas as nossas imperfeições e desafios.


Permitir a vulnerabilidade é ter a coragem de mostrar quem somos de verdade, com nossas alegrias e nossas feridas. É derrubar a armadura de "está tudo bem" e permitir que a luz entre nas rachaduras. Como a pesquisadora Brené Brown brilhantemente nos ensina, a vulnerabilidade não é fraqueza; é, na verdade, a medida mais precisa de coragem. É a porta de entrada para a conexão autêntica, para a empatia e para um bem-estar que não depende de uma performance constante de felicidade.


Um começo de ano verdadeiramente inspirador e saudável não nasce do “pense positivo a qualquer custo”, mas de uma relação mais honesta, humana e consciente com as próprias emoções. Que este Janeiro Branco nos convide a um pacto de acolhimento: acolher a alegria que surge, mas também a tristeza que visita; acolher a esperança que nos move, mas também o medo que nos alerta. 


Que possamos reconhecer que a vida é um emaranhado de sensações e que a plenitude reside na aceitação de todas elas, cultivando a gentileza para conosco e para com os outros. Que a nossa busca pela saúde mental seja uma jornada de autenticidade, vulnerabilidade e um amor profundo e compassivo por quem realmente somos. Que nesse ano, a nossa verdade emocional seja o nosso maior guia!


Daniela Devides, especialista em Educação Socioemocional 

e Psicologia Positiva, pós-graduada pela PUCRS, escritora, 

palestrante, mantenedora do Colégio Degrau de Araçatuba.



 
 
 

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