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O QUE SEU FILHO PRECISA ANTES DO ENEM

Foto do escritor: Daniela Devides
Daniela Devides
há 4 dias
3 min de leitura

Todo ano, quando outubro chega, eu reconheço o mesmo silêncio nos corredores da escola e não é o silêncio de quem está concentrado! Tem adolescente que para de almoçar direito, tem menina que chora no banheiro entre uma aula e outra, tem menino que ri alto demais para disfarçar o medo; e, do outro lado, existem famílias que amam profundamente esses jovens e que, sem querer, apertam ainda mais o nó. Por isso começo com a frase que repito em quase toda formação que faço: seu filho não precisa de mais pressão, ele precisa de apoio para atravessar essa fase.


Vale entender uma coisa simples sobre o que acontece dentro dele. Quando percebe uma ameaça, o corpo se prepara para reagir, o coração acelera, a respiração encurta e a atenção fecha. Foi assim que a gente sobreviveu como espécie, só que hoje a ameaça tem nome de nota e o cérebro adolescente ainda está em obra, a parte que segura o impulso e organiza o plano só fica pronta lá pelos vinte e poucos anos. Não é preguiça, não é ingratidão, não é falta de esforço, é a biologia em construção. Por isso o mesmo jovem que conversa com maturidade sobre o futuro pode desabar porque esqueceu uma fórmula!


Os números ajudam a tirar isso do campo do "frescura", um levantamento do Ministério da Saúde divulgado em 2024 mostrou que, pela primeira vez na história, os jovens apareceram com mais problemas emocionais do que os adultos. Entre 15 e 19 anos, justamente a idade da maioria dos candidatos que prestam o ENEM, são cerca de 157 casos de ansiedade a cada 100 mil jovens. 


Ficar nervoso antes de uma prova que representa anos de estudo é normal e até ajuda, afinal um pouco de adrenalina melhora o desempenho. O que adoece é o excesso que acontece quando o corpo passa semanas em alerta, quando o sono some, quando o estudante deixa de comer, de sair, de rir e, até mesmo quando começa a repetir que não vai conseguir. A linha não está na nota que ele quer, mas sim na vida que ele foi deixando de viver.


E aqui entra o item mais esquecido dessa reta final: o descanso. Para adolescentes de 13 a 18 anos, a recomendação é de oito a dez horas de sono por noite, e isso não é zelo de mãe, é ciência, pois é dormindo que o cérebro guarda o que foi aprendido. Estudar até duas da manhã e dormir cinco horas dá sensação de heroísmo e atrapalha justamente o que se queria ganhar. O cérebro cansado não guarda bem, não presta atenção e perde freio refletindo no que aparece em casa como irritação, choro e briga por motivo pequeno.


Sobre o que a família fala, existe uma diferença enorme entre consolar e pressionar. "É só uma prova" desqualifica o que ele sente. "Você estudou o ano inteiro, então tem obrigação de ir bem" transforma amor em dívida. O que ajuda é bem mais simples e bem mais difícil: olhar nos olhos e dizer "eu vejo que você está com medo, e faz sentido". Só isso já acalma. 


Na prática, a reta final pede presença e rotina, não novidades. Sono regular, comida previsível, um pouco de movimento, algum contato com o que dá prazer. Combine antes a logística do dia, separe o documento, confirme o local, o horário e o transporte. Previsibilidade acalma. Outra dica é conversar sobre o plano B antes da prova, não depois do resultado, porque saber que existe outro caminho tira o peso de que tudo depende de uma manhã só. E lembre que adolescente aprende mais pelo que vê do que pelo que ouve. Se a casa inteira vive a véspera em estado de alerta, o corpo dele entende a mensagem mesmo quando a boca diz "estou tranquilo, filho".


No fim, o ENEM passa. Dura dois dias, mais alguns de espera, e vira uma linha na história de uma vida inteira. O que fica é a memória de como foi atravessar. Se ele atravessar sabendo que o amor da família não estava amarrado ao resultado, terá aprendido algo que nenhuma apostila ensina, que errar não o diminui, que pedir ajuda não é fraqueza e que existe um lugar no mundo onde ele pode chegar tremendo, sem precisar fingir que está inteiro. Talvez seja essa a maior nota que podemos ajudar nossos filhos a conquistar e, tenha certeza de uma única coisa: ela não sai no gabarito!


Daniela Devides — especialista em Educação Socioemocional e Psicologia Positiva, pós-graduada pela PUCRS, com especializações pelas Universidades de Yale e Pensilvânia, escritora, palestrante, mantenedora do Colégio Degrau de Araçatuba e autora do livro Da Reação à Conexão.



 
 
 

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