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O PRESENTE QUE NENHUMA LOJA TEM EM ESTOQUE

Foto do escritor: Daniela Devides
Daniela Devides
6 de out.
3 min de leitura

Há uma cena que se repete em todo Dia das Crianças: corredores lotados, vitrines coloridas, pais e mães com o celular na mão comparando preços, ansiosos para acertar o presente perfeito. Entendo esse ritual de coração, pois eu também já vivi a angústia do medo de errar e a esperança de ver um sorriso. Queremos que aquele dia fique gravado na memória da criança, mas, entre um brinquedo e outro, uma pergunta me persegue, e ela vem das minhas salas de aula, das minhas formações com educadores e, acima de tudo, da minha experiência como mãe: o que uma criança realmente pede quando pede um presente?


Não me entenda mal, eu amo a festa, os pacotes, a alegria do papel rasgado, mas a Neurociência e a Disciplina Positiva se encontram numa descoberta que deveria mudar a forma como vivemos o 12 de outubro. O cérebro da criança não registra o objeto, ele registra a relação. A memória afetiva é tecida com emoção e presença, e por isso o brinquedo mais caro da vitrine pode sumir da lembrança em uma semana, enquanto uma tarde simples de risadas fica para a vida inteira.


A Disciplina Positiva nos lembra que toda criança precisa de duas coisas para florescer: senso de pertencimento e senso de importância. Antes de corrigir, é preciso conectar. Crescemos insistindo em ensinar pelo erro, pela bronca, pelo tom de voz elevado, como se o medo pudesse se transformar em aprendizado. Quando a criança se sente amada incondicionalmente, ela se torna capaz de aprender, de se arrepender, de crescer.


E é aqui que entra alguns presentes que nenhuma loja vende: presença sem telas, escuta ativa, tempo de qualidade e validação das emoções. A presença sem telas se torna um verdadeiro presente quando desligamos o celular e olhamos nos olhos da criança. A prática da escuta ativa, significa ouvir com o corpo inteiro, sem interromper, sem julgar, sem pressa de corrigir. Já o tempo de qualidade é o presente que não se mede em horas, mas em presença. E, por fim, a validação das emoções, talvez o presente mais esquecido de todos, que acontece quando o castelo de blocos desaba e vem o choro, a criança não precisa de uma explicação nem de uma bronca, ela precisa que alguém diga: "eu vejo que você está triste, isso é difícil, e eu estou aqui com você". Palavras simples que ensinam que sentir é humano, que a emoção não é inimiga e que é seguro vir até nós, aconteça o que acontecer.


Então, neste Dia das Crianças, quando você estiver na fila do caixa, quero que você deixe para seu filho um convite, não um presente. Olhe para a criança da sua vida e lembre que o maior presente não está em nenhuma prateleira, ele está nas suas mãos vazias de celular e abertas para um abraço, está no seu colo, no seu tempo, na sua palavra e, principalmente, está em olhar nos olhos dela e dizer: "Eu estou aqui. Você é importante!". Porque, no fim, o que a gente dá nunca é o que fica guardado, pois o que fica é o amor que ensinamos quando escolhemos conectar em vez de reagir e isso, pode ter certeza de que nenhuma loja do mundo vai conseguir estocar.


Daniela Devides — especialista em Educação Socioemocional e Psicologia Positiva, pós-graduada pela PUCRS, com especializações pelas Universidades de Yale e Pensilvânia, escritora, palestrante, mantenedora do Colégio Degrau de Araçatuba e autora do livro Da Reação à Conexão. 

 

 
 
 

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